"Engano ecológico" da indústria da moda: por que nos parece que os recursos são limitados

Autor: Katerina S.

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Há poucos dias, a União Europeia entrou em vigor com a proibição de incinerar e destruir roupas e sapatos não vendidos. Parecia uma vitória da ecologia e do bom senso. Mas, por trás das declarações políticas altissonantes, passou despercebida a informação relativa ao segmento mais intocável – o de alta costura. A notícia sobre o início do processo judicial contra ex-funcionários de um armazém da Chanel em Hong Kong. Eles são acusados de tentar roubar 724 bolsas e artigos de couro. Parecia um roubo comum, mas foi esse processo que abriu a cortina sobre o esquema de descarte de mercadorias não vendidas.

Acontece que os itens que os funcionários tentaram tirar do armazém já haviam sido enviados para "trituração". Como se descobriu durante as audiências, a Chanel destrói regularmente até 20.000 peças não vendidas a cada seis meses. Bolsas pelas quais os compradores pagam milhares de dólares são simplesmente enviadas para a lâmina do triturador. O próprio roubo ocorreu em 2017, mas o processo judicial completo, que revelou a escala de tal "descarte", só começou agora, quase 10 anos depois.

Por que as casas de moda queimam e cortam os excedentes? A resposta é simples e bastante cínica: a preciosa reputação da marca. A incineração ou trituração é mais barata do que as liquidações. O luxo não pode de forma alguma se dar ao luxo de baixar os preços em liquidações – isso mataria a aura de exclusividade. Ao destruir os excedentes, as marcas mantêm artificialmente a aparência de escassez e mantêm os preços em níveis exorbitantes. É mais fácil queimar um lote de bolsas do que permitir que elas caiam nas mãos de compradores "errados" por um preço reduzido.

Atualmente, a União Europeia está a pressionar fortemente retalhistas chineses como Shein e Temu. Sob a bela tese de que "fast fashion é mal", estão a ser introduzidas novas taxas e verificações. Mas, se olharmos atentamente, o luxo também tem o rabo sujo, e os pecados são muito maiores.

Os funcionários europeus estão a atingir os bolsos das plataformas online asiáticas, mas preferem não notar, por exemplo, quem exatamente costura o "luxo italiano". Investigações dos últimos anos provaram repetidamente que, por trás das placas "Made in Italy", esconde-se trabalho escravo autêntico. Nas mesmas regiões italianas (por exemplo, em Prato), pessoas de origem asiática trabalham em condições desumanas, em oficinas subterrâneas, recebendo centavos pela costura de roupas que depois serão exibidas nas vitrines de Milão e Paris por centenas e milhares de euros. Mas este "lado sujo" do luxo, os reguladores europeus parecem não notar, preferindo lutar contra moinhos de vento na forma de moletons baratos chineses.

Parecia que, com a nova proibição, a justiça da UE seria restaurada, e as marcas de alta costura também seriam forçadas a pensar em produção razoável. Mas a prática mostra que nem tudo é tão simples.

Lembremos da França, que há 6 anos, em 2020, aprovou uma lei semelhante, proibindo a destruição de bens não alimentares não vendidos. O que aconteceu na prática? As marcas encontraram uma excelente brecha.

Por que queimar roupas se elas podem ser "doadas"? As casas de moda começaram a doar em massa coleções antigas, ilíquidas ou fora de moda para organizações de caridade. Em troca, recebem um enorme benefício fiscal do Estado. Parecia que todos ganhavam. Mas no ano passado a verdade veio à tona: as ONGs estavam simplesmente a transbordar de montanhas de roupas desnecessárias.

Os armazéns de caridade estão abarrotados de itens que não podem ser distribuídos. Ou seja, as casas de moda simplesmente transferiram o problema para os ombros de outros. Elas não reduziram os volumes de superprodução, apenas mudaram o método de descarte: em vez de fogueiras, contêineres de lixo cheios e armazéns de fundações de caridade que não sabem o que fazer com este "presente".

E esta é apenas uma forma de cumprir a lei, mas sem alterar a quantidade de roupas confeccionadas. A proibição de destruição é apenas um reparo cosmético numa indústria construída sobre a superprodução. Quaisquer leis serão contornadas através da "caridade" ou de aterros sanitários ocultos em países do terceiro mundo. A ecologia não será ajudada pela proibição de incineração, mas apenas pela recusa da cultura de consumo excessivo promovida pela indústria da moda. Mas nisso, as casas de moda, infelizmente, não têm nenhum benefício comercial.

E se olharmos mais amplamente, a destruição de bens de luxo não é um excesso da indústria da moda, mas um modelo ideal de como funciona a economia de escassez artificial em geral. E é essa estratégia que cria uma ilusão fundamental na humanidade: parece-nos que os recursos naturais, bens, energia são objetivamente limitados, que "não há o suficiente para todos". Mas não é assim. A escassez não é natural e ambiental, é artificial.

A De Beers comprou diamantes por décadas e os trancou em cofres para que o preço dos diamantes não caísse. Produtores de alimentos em países desenvolvidos descartam toneladas de alimentos próprios para consumo, enquanto em outras regiões as pessoas passam fome. Empresas farmacêuticas compram patentes para não lançar análogos baratos de medicamentos. Corporações de energia cotam a produção para manter os preços do petróleo.

O preço alto não é um reflexo do custo ou da escassez de matérias-primas. É um filtro de acesso que participa na criação de uma hierarquia, uma ilusão de "dignidade". E os excedentes não são distribuídos nem redistribuídos, eles são destruídos, porque a disponibilidade mata a margem de lucro mais rápido do que qualquer crise. E enquanto essa lógica permanecer como o sistema operacional básico da economia global, viveremos na ilusão de que o planeta não pode alimentar a todos, que os recursos são objetivamente escassos. Mas a verdade é que os recursos são suficientes, simplesmente a sua disponibilidade contradiz os interesses daqueles que controlam os mercados.

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Fontes

  • European Commission. Ecodesign for Sustainable Products Regulation (ESPR). — Официальный текст регламента

  • South China Morning Post

  • Refashion. Rapport annuel sur le recyclage textile en France

  • La Repubblica

  • BBC News. The Chinese workers making luxury Italian fashion

  • Edward Jay Epstein. The Diamond Invention (full text)

  • FAO. The State of Food and Agriculture 2019: Food loss and waste

  • Science. Can Patents Deter Innovation? The Anticommons in Biomedical Research (Heller & Eisenberg, 1998)

  • The Guardian. Why luxury brands burn their unsold goods

  • Vogue Business. The economics of luxury brand destruction

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