Nos acervos científicos, às vezes escondem-se mais descobertas do que nas mais modernas expedições. O pesquisador peruano Junior Chuctaya Vásquez, do Instituto de Pesquisas da Amazônia Peruana, revisou antigos espécimes e identificou uma nova espécie — Odontostilbe britskii. O material, coletado ainda em fevereiro de 1963, permaneceu por décadas guardado, até que diferenças cruciais fossem descobertas.
O trabalho foi publicado na revista Neotropical Ichthyology. Os cientistas compararam características morfológicas, merísticas e osteológicas de exemplares antes atribuídos a Odontostilbe paraguayensis. As diferenças mostraram-se suficientes para reconhecer uma espécie independente. Além disso, a equipe elaborou uma chave de identificação para todos os representantes do gênero nas bacias do Paraná e do Paraguai.
O novo peixe é conhecido até agora apenas em pequenas lagoas marginais do rio Corumbataí, no estado de São Paulo, Brasil. Trata-se da mais restrita área de distribuição conhecida entre os Odontostilbe. O nome homenageia o ictiólogo brasileiro Heraldo A. Britski, que participou pessoalmente da coleta de parte do material e deu grande contribuição ao estudo dos peixes neotropicais.
O estudo tornou-se um exemplo de frutífera cooperação entre especialistas peruanos e brasileiros. As coleções formadas décadas atrás continuam a servir à ciência: permitem precisar os limites das espécies, reconstituir o quadro histórico de distribuição e revelar formas que antes passavam despercebidas.
Achados como esse lembram como é importante conservar e catalogar os acervos museológicos. Sem uma revisão sistemática das antigas coletas, muitas espécies permanecem "invisíveis" até para os especialistas. No caso de Odontostilbe britskii, foi justamente o trabalho minucioso com o material de arquivo que abriu uma nova página na compreensão da diversidade dos peixes amazônicos e paranaenses.
A importância de tais descobertas ultrapassa os limites de um único artigo: elas mostram que a proteção do patrimônio natural começa pelo cuidado com o patrimônio científico do passado.

