Moléculas orgânicas sobrevivem ao inferno de supernova: descoberta de “núcleos quentes” em remanescente de explosão

Autor: Uliana S

Uma visão artística do núcleo quente — um casulo quente de gás molecular envolvendo uma estrela recém-nascida — encontrada no remanescente de uma supernova.

Há cerca de 1.600 anos, uma supernova explodiu na constelação de Escorpião – um evento registrado nas antigas crônicas chinesas. A poderosa explosão espalhou o gás circundante, gerou ondas de choque, raios cósmicos e radiação intensa. Parecia difícil esperar um nascimento tranquilo de novas estrelas e a preservação da química orgânica complexa em tal caos. No entanto, observações com o telescópio ALMA mostraram o oposto: no remanescente de supernova RX J1713.7−3946, os astrônomos descobriram “berços” protegidos de estrelas jovens, ricos em moléculas orgânicas complexas.

Uma equipe internacional liderada pelo Professor Takashi Shimomura, da Universidade de Niigata, utilizou a alta resolução angular do ALMA (cerca de 0,5 segundos de arco) para investigar esta região extrema. O resultado superou as expectativas: foram encontrados dois “núcleos quentes” – aglomerados de gás densos e quentes em torno de protoestrelas. Eles contêm uma variedade de moléculas, incluindo compostos orgânicos complexos e água. Em termos de composição química, esses objetos são semelhantes a núcleos quentes comuns em regiões calmas de formação estelar, onde a matéria orgânica não foi submetida ao efeito destrutivo da supernova.

Esta é a primeira descoberta desse tipo. Anteriormente, acreditava-se que as poderosas ondas de choque, raios cósmicos e radiação de raios-X teriam destruído as moléculas orgânicas ou alterado radicalmente a química do ambiente. No entanto, as moléculas sobreviveram. As possíveis razões incluem tempo insuficiente para destruição completa ou o efeito protetor de fortes campos magnéticos gerados pela onda de choque, que blindam os raios cósmicos.

Por que isso é importante? Os núcleos quentes são exatamente os locais onde estrelas e sistemas planetários se formam. Neles, em grãos de poeira a baixas temperaturas, formam-se mantos de gelo com matéria orgânica, que depois passa para a fase gasosa à medida que aquece. Tais moléculas poderiam ter sido precursoras da química pré-biótica em nosso Sistema Solar. A análise de isótopos radioativos sugere que o Sistema Solar também se formou perto da influência de supernovas. A nova descoberta reforça a hipótese de que condições extremas não necessariamente esterilizam o material para planetas futuros.

As observações do ALMA oferecem uma nova perspectiva sobre o ciclo de vida e morte das estrelas. Supernovas não apenas dispersam elementos pesados, mas também parecem ser capazes de promover, ou pelo menos não impedir, a nova formação estelar com preservação da complexidade química. A equipe planeja pesquisas adicionais com telescópios de rádio e infravermelho para entender se esse quadro é típico ou exclusivo deste remanescente.

A descoberta nos lembra o quão resiliente a química cósmica pode ser. Mesmo nas ruínas de uma explosão estelar, a natureza encontra maneiras de preservar os blocos de construção para mundos futuros. Isso nos inspira a continuar buscando respostas sobre como exatamente o material capaz de dar origem a planetas e, possivelmente, à vida surge e é preservado em nossa galáxia.

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