Em setembro de 2026, abriu-se na Coreia do Sul a 16ª Gwangju Biennale — uma das exposições de arte contemporânea mais notáveis da Ásia. Este ano, ela propõe ao espectador uma experiência incomum: desacelerar.
A bienal acontece de 5 de setembro a 15 de novembro no Gwangju Biennale Exhibition Hall. O diretor artístico é o artista e curador singapurense Ho Tzu Nyen. Ao lado dos curadores Che Kyongfa, Park Gahee e Brian Kuan Wood, ele reuniu 43 artistas e coletivos artísticos de 22 países.
Para uma bienal dessa magnitude, o número de participantes parece inesperadamente pequeno. E é justamente aí que reside um dos principais gestos desta edição. Ho Tzu Nyen reduziu deliberadamente o número de participantes em comparação com as edições anteriores. Como resultado, esta é a Gwangju Biennale com o menor número de artistas de toda a sua história. Ao mesmo tempo, muitos autores tiveram a oportunidade de mostrar várias obras de uma só vez e apresentar sua prática de forma muito mais detalhada.
O resultado é uma curiosa mudança de escala: menos artistas — mais espaço, mais tempo e mais atenção para cada obra.
«Tu deves mudar a tua vida»
O título da bienal — You Must Change Your Life — foi tirado do famoso verso final do poema «Torso Arcaico de Apolo», de Rainer Maria Rilke, escrito em 1908.
No poema, Rilke descreve o torso antigo de Apolo. A escultura não tem cabeça, mas o protagonista do poema sente nela uma presença de vida tão intensa que o encontro com a obra termina com a frase: «Tu deves mudar a tua vida».
Para Ho Tzu Nyen, esse verso não se tornou um apelo pronto, mas um ponto de partida para uma conversa sobre mudança. A exposição não oferece ao espectador uma única resposta correta à pergunta sobre o que exatamente deve ser mudado. Muito mais importante é outra coisa: o que acontece quando se dá a uma pessoa tempo suficiente para realmente olhar.
Não passar rapidamente para a próxima sala. Não ler a legenda e marcar mentalmente um visto. Mas demorar-se junto à obra, notar seu material, sua escala, seu som, a própria reação — e, talvez, voltar a ela mais uma vez.
É justamente a atenção que se torna um dos principais materiais desta bienal.
Cinco galerias — da molécula ao cosmos
A exposição principal está dividida em cinco galerias. Seus nomes formam uma espécie de mapa de percurso: da matéria e do corpo humano às relações, à terra, ao cosmos e, por fim, ao ar e ao som.
Gallery 1 — Molecules and Me começa pela menor escala de todas.
Aqui está Resin Pond de Goldin+Senneby — quase duas toneladas de resina de pinheiro, derramadas diretamente sobre o chão. O material ocupa o espaço e literalmente altera o deslocamento do visitante: o percurso habitual precisa ser contornado. Há também uma dimensão pessoal na obra. Ela está ligada à experiência de um dos integrantes da dupla, que vive com esclerose múltipla, e por isso a conversa sobre a matéria passa gradualmente ao corpo, à sua vulnerabilidade e à sua capacidade de adaptação.
Ao lado, surgem pedras vulcânicas da ilha de Jeju. Elas parecem transportar a conversa para uma escala de tempo completamente diferente — para um lugar onde a mudança já não se mede pela vida humana, mas por processos geológicos.
Galeria 2 — Corpos e Vínculos volta-se para o corpo e para as relações entre as pessoas. Aqui importam a repetição, a disciplina, a proximidade, o cuidado e a tensão que surge dentro dos vínculos humanos.
Galeria 3 — Paisagens e Aprendizagem amplia a escala para a terra, o trabalho e a experiência coletiva.
Galeria 4 — Cosmos e Mudança olha ainda mais longe. O sonho, a memória, os antepassados e o tempo planetário permitem imaginar a mudança em escalas que ultrapassam em muito a vida humana.
Galeria 5 — Ar e Articulações parece libertar gradualmente o espaço da materialidade. Aqui se destaca especialmente a obra de Jacqueline Kiyomi Gork Not Exactly BPM (Variation Rrose) (2026) — uma instalação de grande escala que reúne som, escultura e uma composição techno multicanal. O espaço lembra ao mesmo tempo uma construção arquitetônica e um labirinto, e o som torna-se parte física do ambiente.
Quando o tempo se torna parte da arte
Isso se manifesta de modo especialmente interessante nas obras que é impossível ver por inteiro em poucos minutos.
Angela Goh apresenta Craft (2026) quatro vezes por dia. No centro da obra estão o corpo humano e pequenos movimentos repetidos que, aos poucos, se transformam numa composição coreográfica plena.
Em Sunik Kim, a escala do tempo torna-se quase literal. The Light in the Factory (2026) dura 496 horas — exatamente o tempo que dura o programa público da exposição principal. A obra está ligada à história do trabalho industrial e da repressão contra os trabalhadores, e o seu som espalha-se pelo edifício da bienal ao longo de todo o período da exposição.
Há ainda outro gesto temporal — Apologies James T. Hong. É uma compilação de quase onze horas de desculpas públicas de líderes políticos, que à noite é projetada na fachada do edifício.
Obras assim é impossível «encerrar» com um só olhar. Pode-se chegar ao início e ver apenas um fragmento. Pode-se voltar mais tarde. Pode-se ouvir a obra antes de a ver. Pode-se passar muito mais tempo ao lado dela do que se planeava inicialmente.
E aqui surge uma diferença importante da atual Gwangju Biennale: o tempo deixa de ser apenas a duração da visita e torna-se parte da experiência artística.
Gwangju: mudança pessoal e memória da cidade
Esta ideia tem também um contexto especial. A Gwangju Biennale foi fundada em 1995, 15 anos após o levante democrático de 18 de maio de 1980, que se tornou uma parte importantíssima da história da cidade. Por isso, a conversa sobre as mudanças em Gwangju existe inevitavelmente ao mesmo tempo nos planos pessoal e público.
Um dos exemplos mais fortes torna-se o projeto May Mothers House. É uma comunidade de mulheres cujas vidas foram profundamente afetadas pelos acontecimentos de 1980. Desde 2022, trabalham com o artista Joo Hong no âmbito de oficinas artísticas. Na bienal estão apresentadas 322 pinturas criadas ao longo desse processo.
Aqui a mudança adquire uma escala completamente diferente. Pode ser pessoal. Pode ocorrer no corpo. Pode expressar-se num movimento repetido ou numa prática artística. E pode tornar-se gradualmente parte da memória coletiva.
O que resta depois da exposição
You Must Change Your Life soa como um título muito categórico. Mas a própria bienal revela-se muito mais delicada do que essa frase.
Ela não explica ao espectador como deve ser a sua vida depois da visita. Em vez disso, oferece tempo. Tempo para observar o material. Ouvir o som. Observar um movimento repetido. Voltar a uma obra que a princípio foi difícil de compreender.
Neste sentido, as mudanças na Gwangju Biennale ocorrem não apenas nos temas das obras. Estão incorporadas na própria organização da exposição: no menor número de participantes, na possibilidade de passar mais tempo com a arte e em obras que se revelam gradualmente.
E, talvez, seja precisamente por isso que a pergunta principal desta bienal soa hoje com especial precisão.
O que somos capazes de ver quando a atenção se torna mais concentrada?
A Gwangju Biennale 2026 responde-lhe não com uma única obra nem com uma única conceção. Responde com o próprio ritmo da exposição. Menos pressa. Mais tempo junto da arte. Mais espaço para a mudança.


