Montagem prime: como a célula monta grandes fragmentos de DNA sem quebras duplas

Autor: Elena HealthEnergy

Montagem prime: como a célula monta grandes fragmentos de DNA sem quebras duplas-1
Ou seja, o princípio pode mudar: uma mutação → uma correção em um único segmento de gene → uma construção universal.

Editar as «letras» individuais do DNA os cientistas já sabem fazer. Muito mais difícil é substituir de uma só vez um grande trecho de um gene — sobretudo sem uma quebra de dupla cadeia do DNA.

Um novo trabalho na revista Nature descreve a montagem prime (prime assembly) — um método que amplia as possibilidades da edição prime e permite inserir em regiões determinadas do genoma fragmentos de DNA com vários milhares de nucleotídeos.

O sistema cria nas duas cadeias do DNA curtas «caudas» de cadeia simples 3′. Elas são escolhidas de modo a coincidir com as extremidades do fragmento doador. Depois disso, os próprios mecanismos celulares completam e unem a molécula.

Em princípio, isso lembra a montagem de Gibson — uma forma de unir fragmentos de DNA num tubo de ensaio. Só que aqui essa montagem ocorre diretamente dentro de uma célula viva.

Num dos experimentos, os pesquisadores trabalharam com o gene TINF2, cujas mutações estão associadas a graves distúrbios na manutenção dos telômeros. Eles substituíram um trecho de 106 nucleotídeos, preservando ao mesmo tempo a sequência de aminoácidos da proteína. Em células K562, a eficiência da edição chegou a 33,1%.

Os autores também demonstraram a integração de sequências doadoras de até 12,1 quilobases e a possibilidade de grandes rearranjos do genoma já existente, até a escala de megabases.

É especialmente importante que a montagem prime tenha funcionado não apenas em linhagens celulares de laboratório, mas também em células hematopoiéticas humanas primárias CD34+ e em linfócitos T, incluindo células que não se dividem. A eficiência ali ainda é significativamente menor, mas o próprio fato de tal edição amplia o campo potencial de aplicação do método.

Também é interessante a ideia de uma terapia que não dependa de uma mutação específica. Em vez de criar uma ferramenta separada para cada mutação, pode-se tentar substituir ou recodificar de uma só vez todo um trecho problemático do gene.

Ou seja, o princípio pode mudar: uma mutação → uma correção para um trecho do gene → uma construção universal.

Por enquanto, a montagem prime continua sendo uma tecnologia experimental. Ainda será preciso torná-la mais eficiente em células terapeuticamente importantes e resolver a questão da entrega dos componentes diretamente no organismo.

Mas o próprio conceito mostra uma mudança importante na engenharia genética: a edição do genoma passa gradualmente do corte do DNA para a sua montagem programável dentro da célula.

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Fontes

  • Targeted genomic integration and rearrangement using prime assembly

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