Segundo estimativas do Ministério das Finanças, cerca de 20 milhões de russos possuem criptoativos no valor de 3,7 trilhões de rublos — aproximadamente 44 bilhões de dólares. Esse número, anunciado pelo vice-ministro Ivan Chebeskov no final de setembro de 2026, soa como um desafio silencioso ao sistema bancário oficial, onde sanções e restrições estreitam os canais habituais.
Por trás dos números secos não está apenas a especulação, mas uma necessidade prática. Em condições de desconexão do SWIFT e de sanções secundárias, a cripto tornou-se um instrumento para os cálculos do comércio exterior — da microeletrônica aos componentes automotivos. O giro diário de 50 bilhões de rublos mostra que o mercado já não é marginal, mas um segmento significativo da economia, onde as pessoas buscam caminhos alternativos para preservar e movimentar capital.
O Estado, por sua vez, não fica à margem. A nova lei «Sobre moedas digitais e direitos digitais», em vigor desde 1 de setembro, introduz o licenciamento de casas de câmbio, depositárias e corretoras. Para julho de 2027, está prevista a responsabilidade criminal por operações ilegais, enquanto as transações civis comuns permanecem, por ora, fora do alcance. O objetivo é evidente: trazer o capital de volta ao controle, tributá-lo e minimizar os riscos das stablecoins estrangeiras, que podem congelar ativos.
Os interesses aqui se entrelaçam de forma complexa. Para o detentor comum, a cripto é tanto um hedge contra a inflação do rublo quanto uma forma de diversificar as poupanças, quando os depósitos bancários em moeda estrangeira são limitados. Para as autoridades, é a possibilidade de rastrear os fluxos por meio de plataformas nacionais e, possivelmente, direcionar parte dos recursos para um leito regulado. As estimativas dos especialistas ainda são incompletas: os números incluem não apenas carteiras diretas, mas também produtos financeiros associados.
Imagine um rio que encontra frestas na barragem: a água continua a correr, mas agora o Estado tenta instalar comportas e medidores. As novas regras exigem relatórios sobre carteiras no exterior e introduzem limites para investidores não qualificados — 300 mil rublos por ano por intermediário. Não é uma proibição, mas uma tentativa de domar a fúria.
Curiosamente, o Ministério das Finanças prevê a entrada de mais 10 milhões de usuários já em 2027, quando o mercado começar a operar em terreno legal. No entanto, a precisão das estimativas atuais permanece fruto de análise especializada, e não de um censo abrangente.
No fim, 20 milhões de pessoas já votam com suas carteiras por uma alternativa, e a questão não é se a cripto desaparecerá, mas até que ponto o Estado conseguirá integrá-la à sua arquitetura financeira sem perder a confiança dos participantes.
