Quando uma empresa cujo token já atende metade do mercado de stablecoins decide investir centenas de milhões em crédito privado, isso não é apenas um investimento — é uma tentativa de reescrever as regras da circulação de dinheiro entre países e empresas.
Em 9 de setembro de 2026, a Tether, em conjunto com a gestora londrina Fasanara Capital, anunciou a criação do fundo StableFund. Os patrocinadores investiram 400 milhões de dólares, e a meta é atrair até 3 bilhões de investidores institucionais. A Fasanara administrará o capital e o alocará por meio de uma rede de credores fintech em mais de 60 países, com foco em ativos de curto prazo garantidos por empréstimos reais a pequenas e médias empresas. A Tether atua como fonte de negócios e fornecedora de infraestrutura: o USDT será a base para liquidações, on-ramps e off-ramps e operações de tesouraria.
Por trás desse acordo não está apenas o desejo de diversificar as reservas. Há muito tempo a Tether converte o lucro da emissão de USDT em investimentos fora do mercado cripto — de telecomunicações à inteligência artificial. Agora a stablecoin passa do papel de «dólar digital para traders» a instrumento que alimenta diretamente os fluxos de crédito. Num mundo em que a lacuna de financiamento das PMEs é estimada em 5,7 trilhões de dólares, e o mercado de crédito privado cresce rumo a 5 trilhões até 2029, tal movimento parece lógico: o USDT proporciona transferências transfronteiriças ininterruptas, sem as demoras e comissões do sistema bancário tradicional.
Os interesses das partes são evidentes. A Fasanara obtém acesso à enorme rede de originação da Tether e a capital barato e ágil. A Tether, por sua vez, consolida o USDT não apenas como meio de pagamento, mas também como infraestrutura para a economia real — de crédito ao consumidor a financiamento comercial. Para os tomadores em países em desenvolvimento, isso pode significar empréstimos mais acessíveis; para os investidores, uma nova classe de ativos com potencial de alta rentabilidade e menor volatilidade do que a cripto pura.
No entanto, por trás do quadro atraente também se escondem riscos. O crédito privado, por si só, é menos regulado do que o bancário, e a integração de stablecoins acrescenta uma camada de incertezas tecnológicas e regulatórias. Se o USDT continuar a dominar, o fundo pode reforçar a dependência de regiões inteiras em relação a um único emissor. Se, por outro lado, os reguladores apertarem as regras, a infraestrutura da Tether ficará sob pressão.
No fim, o StableFund não é apenas mais um fundo cripto. É um sinal: as stablecoins deixam de ser um nicho e passam a fazer parte do encanamento financeiro global. Para a pessoa comum, isso significa que o dinheiro que ela mantém em USDT ou envia para o exterior começa gradualmente a trabalhar não apenas para a especulação, mas também para o crédito a empresas reais — e de como esse experimento se desenrolar dependerá o quão transparente e acessível se tornará o mundo das finanças nos próximos anos.

