Certamente você já notou que, nos filmes, as atrizes são frequentemente mostradas de costas, em planos abertos, ou apenas suas mãos aparecem em destaque. Na maioria dos casos, não se trata da própria estrela, mas sim de um dublê.
Isso não é um segredo, mas sim uma prática padrão na indústria cinematográfica, impulsionada pela economia do processo de filmagem. O tempo de gravação de uma grande estrela é extremamente caro e seu cronograma é rigorosamente limitado.
Enquanto a atriz se prepara para cenas complexas de diálogo, descansa no camarim ou grava em outro set, seu dublê executa os planos técnicos: caminha pelo corredor, abre uma porta ou segura uma taça. Com uma montagem bem-feita, o público não percebe a substituição, permitindo que o estúdio economize milhares de dólares e horas de produção.
No entanto, as cenas de costas são apenas uma pequena fração do trabalho desses profissionais. Vamos explorar quais outras funções eles desempenham nos bastidores das grandes produções.
1. Eles podem ser contratados exclusivamente por causa dos... pulsos
Danielle Sepulveres é uma dublê profissional com dezenas de filmes e séries em seu currículo. O fato mais surpreendente, porém, é que em certas ocasiões ela foi contratada apenas por causa de suas mãos.
Ela já apareceu em comerciais de cosméticos, onde o close mostrava a aplicação de um creme, e até mexeu uma salada substituindo Brooke Shields. Em "The Good Wife", suas mãos entregaram documentos, escreveram listas e serviram vinho.
Certa vez, durante uma filmagem, ela ouviu o diretor reclamar que seus pulsos eram "muito diferentes" dos da atriz principal. Embora não tenha sido demitida, ela percebeu que poderia ser substituída simplesmente pelo formato de suas articulações.
Conclusão: em Hollywood, existem profissionais cujas carreiras dependem inteiramente da estética de suas mãos.
2. Eles não servem apenas para acrobacias
Temos o hábito de associar dublês apenas a cenas de ação, mas a verdade é que existem diversas especialidades nesta profissão:
- Stunt double — para cenas de ação e perigo
- Body double — para cenas de nudez ou ângulos específicos
- Hand double — focado apenas nas mãos
- Photo double — para cenas de multidão que exigem o rosto, mas não atuação
- Stand-in — não aparece na tela, apenas marca a posição do ator para o ajuste de luz
Um detalhe interessante é que muitos são contratados por questões sindicais. Segundo as regras do SAG (Sindicato dos Atores dos EUA), os artistas devem ter pelo menos 12 horas de descanso entre as gravações. Quando o cronograma se estende, o dublê assume o lugar da estrela para que os contratos não sejam violados.
3. Os atores podem ser muito sensíveis na escolha de seus substitutos
Dee Dee Ricketts, diretora de elenco de "Titanic", revelou que selecionar um dublê é como atravessar um campo minado. Não se pode escolher alguém magro demais, bonito demais ou velho demais, sob o risco de o ator pensar: "é assim que eles me veem!".
Muitas celebridades exigem o direito de veto na escolha de seus dublês, cláusula que alguns chegam a incluir em contrato. Imagine o desafio: é preciso ser parecido com a estrela, mas não ao ponto de despertar inseguranças nela.
4. Eles podem NUNCA conhecer o ator que estão substituindo
A atriz dinamarquesa Elvira Friis trabalhou como dublê de Charlotte Gainsbourg no filme "Ninfomaníaca", de Lars von Trier. Ela participou das cenas mais explícitas da obra. E sabe de uma coisa? Ela nunca se encontrou com Charlotte Gainsbourg.
"O contato mais próximo que tive com Charlotte foi vestir o mesmo figurino que ela", admitiu Friis.
5. ...Ou podem passar dias inteiros ao lado deles
Por outro lado, no filme "Onde Está Segunda?" (2017), Noomi Rapace interpreta sete irmãs idênticas. Tornou-se impossível realizar a obra sem o auxílio de dublês. Rapace treinou pessoalmente sua equipe de apoio, ensinando como deveriam se movimentar, falar e interpretar cada uma das irmãs.
Em "Game of Thrones", Lena Headey (Cersei) trabalhou de perto com a dublê Rebecca Van Cleave para a cena da Caminhada da Vergonha. Headey orientou pessoalmente os movimentos e as emoções da personagem. Posteriormente, a própria Headey filmou a mesma cena usando um traje bege, removido digitalmente para que o público visse o rosto da atriz no corpo da dublê.
6. Nem sempre eles se parecem com os atores
Brett Baker foi o dublê de Leonardo DiCaprio em "Titanic". Sabe qual era o problema? Ele era alguns centímetros mais baixo que DiCaprio e sete anos mais velho. Visto de frente, você jamais diria que ele era Jack Dawson.
Contudo, ao ser filmado por trás ou de cima, vestindo a mesma roupa e com o mesmo penteado, ele se tornava o substituto ideal.
Conclusão: o dublê não precisa ser idêntico ao ator, mas sim parecer com ele na forma como a cena é enquadrada.
7. O CGI tornou esse trabalho ainda mais imperceptível
Atualmente, a tecnologia permite sobrepor o rosto de um ator ao corpo do dublê na pós-produção. Isso significa que o dublê pode aparecer inteiramente em cena, enquanto o público visualiza apenas a face da estrela.
O exemplo mais célebre é o de Paul Walker, que faleceu durante as filmagens de "Velozes e Furiosos 7". Para concluir a obra, a produção utilizou seus irmãos e outros atores como dublês, aplicando digitalmente o rosto de Walker sobre seus corpos. A versão final do longa contém 260 planos feitos com esses substitutos.
8. Eles podem ser contratados e nunca entrar em cena
Laura Grady foi contratada para ser a dublê de Robin Wright no filme "Intrigas de Estado" (2009). Ela passou os dias de prontidão no camarim, mas acabou não participando de nenhuma gravação.
"Robin decidiu fazer suas próprias cenas de nudez", explicou Grady. Situações assim são comuns: a atriz pode sentir-se tímida no início, mas depois se acostuma com o set e resolve fazer a cena. Ou então a cena é modificada e a nudez deixa de ser necessária.
A boa notícia é que, mesmo sem aparecer, o dublê recebe o pagamento integral pelo seu tempo.
9. Qual é a remuneração desses profissionais?
É aqui que a realidade se torna mais dura.
Veja a média salarial de um dublê de ação (stunt double) nos Estados Unidos:
- US$ 17,23 por hora (em média)
- US$ 980 por dia para uma jornada de 8 horas (conforme tabela sindical)
- US$ 50.000 a US$ 100.000 por ano (renda média anual)
Os dublês de elite em grandes produções podem chegar a ganhar entre US$ 200.000 e US$ 250.000 anualmente. No entanto, para fins de comparação, até mesmo um ator iniciante com um papel pequeno pode receber mais em um único dia de gravação do que um dublê em uma semana inteira de trabalho.
Por quê? Porque o dublê é um trabalhador "invisível". Seu rosto não é exibido em cena. Seu nome não consta nos créditos principais, aparecendo apenas no final e em letras miúdas. O sucesso de sua função depende justamente de sua total discrição.
O grande paradoxo da profissão
Os dublês realizam as tarefas que as estrelas não podem ou não querem fazer. Eles arriscam a vida em acrobacias perigosas. Eles se expõem em cenas de nudez. Eles trabalham jornadas de 14 horas diárias enquanto os astros estão descansando.
Contudo, seu mérito é medido pela invisibilidade de seu esforço. Se você assistiu a um filme e não percebeu a troca de atores, significa que o profissional executou seu trabalho com perfeição.
Da próxima vez que vir uma cena em que uma atriz é filmada de costas, ou quando apenas as mãos dela aparecerem, lembre-se: pode ser outra pessoa ali.




