Em países onde a inflação de dois ou três dígitos derrete as economias há anos, a população busca há tempos maneiras de preservar o fruto do seu trabalho. A América Latina já utiliza criptomoedas há algum tempo, não por especulação, mas como uma ferramenta prática de proteção e transferência de valores.
Em 2025, a região registrou mais de 730 bilhões de dólares em volume de transações cripto — um crescimento anual de 60%. A América Latina foi responsável por cerca de 10% da movimentação global. As stablecoins pareadas ao dólar tornaram-se o principal motor: sua participação nos fluxos brasileiros ultrapassa os 90%, enquanto na Argentina chega a 60%.
As razões vão muito além das manchetes habituais. A inflação média nas cinco maiores economias da região nos últimos 15 anos foi de 13%, comparada aos 2,3% dos Estados Unidos. Na Venezuela e na Argentina, os números atingiram dezenas de milhares e centenas de pontos percentuais. Sob tais condições, os dólares digitais em blockchain oferecem a oportunidade de armazenar valor e transferir dinheiro sem a intermediação de bancos, que muitas vezes são inacessíveis ou caros.
As remessas de migrantes são outro fator de peso. A região recebe anualmente cerca de 142 bilhões de dólares em remessas. Os serviços tradicionais cobram uma taxa média de 6,2%. O blockchain reduz esse valor para frações de porcentagem, o que para uma família no Peru ou na Colômbia representa uma economia real comparável a uma semana de salário.
Em 2026, o cenário muda: os players institucionais se juntam à demanda do varejo. A Deutsche Börse, por meio do Crypto Finance Group, entra na região oferecendo serviços de custódia e negociação para bancos e fundos. O Nubank, no Brasil, oferece recompensas pela custódia de USDC, enquanto a bolsa local B3 lançou ETFs à vista de XRP e SOL antes dos Estados Unidos. Corporações como o Méliuz já mantêm bitcoin em seu tesouro.
A regulamentação continua sendo a variável fundamental. O Brasil implementou a Lei dos Ativos Virtuais, com exigências de licenciamento e a Travel Rule. México e Chile possuem seus próprios marcos regulatórios desde 2018 e 2023, respectivamente. A Bolívia revogou sua proibição, enquanto a Argentina introduziu o registro obrigatório para corretoras. Dez países já possuem regras formais, mas as divergências entre elas geram riscos: qualquer endurecimento no Brasil, responsável por um terço do volume regional, impactará todo o mercado.
Stablecoins e regulamentações moldam, juntas, uma nova infraestrutura. O que começou como uma forma de sobreviver à desvalorização cambial está se tornando gradualmente um sistema financeiro paralelo para 650 milhões de pessoas. A questão para 2026 é se essa base suportará a pressão institucional e regulatória ou se permanecerá em uma zona de incerteza.
Para quem envia dinheiro para casa ou tenta proteger suas economias, a escolha não é mais entre o "cripto" e o "tradicional", mas entre diferentes níveis de confiança em sistemas que já falharam antes.



