Muitos donos de animais contam quase a mesma história.
Faltam ainda uns dez minutos para você chegar. O carro nem entrou no pátio, a chave ainda nem girou na fechadura — e o cachorro já está sentado à porta. Ou o gato, que passou o dia todo dormindo tranquilamente, de repente se levanta, vai para o hall de entrada e assume seu posto de observação.
Os moradores da casa se surpreendem:
— Como ele sabe que você está vindo para casa?
E o mais interessante é que a ciência realmente estudou esse fenômeno. Na verdade, a resposta acabou sendo, ao mesmo tempo, mais prosaica e mais misteriosa do que gostaríamos.
Os animais possuem todo um conjunto de "pistas" que nós não percebemos
Comecemos pelos cães. O mundo deles é construído em grande parte sobre cheiros.
Pesquisas mostram que um cão é capaz não apenas de reconhecer o cheiro de uma pessoa específica, mas também de associá-lo à imagem dessa pessoa. Em um experimento publicado na Scientific Reports, os cães formavam expectativas específicas sobre quem encontrariam, baseando-se apenas no rastro olfativo. Vamos analisar mais detalhadamente.
Cães: como eles "sentem" você a quilômetros de distância?
Os cães não possuem telepatia, mas seus sistemas sensoriais são tão perfeitos que, de fora, parece mágica. Aqui estão três ferramentas principais com as quais o cão entende que você chegará em casa em breve.
1. Uma "impressão acústica" única (Audição)
Os cães ouvem em uma faixa de até 45–65 kHz (humanos apenas até 20 kHz) e captam sons a uma distância de vários quilômetros.
- Som do motor: O cão é capaz de distinguir o som do seu carro especificamente de dezenas de outros veículos de marca semelhante. Ele memoriza vibrações específicas, o som do escapamento e até mesmo a maneira como você troca as marchas.
- Passos e vozes: O cão ouve seus passos no patamar da escada ou sua voz quando você ainda está falando ao telefone no pátio vizinho.
2. Os cães sabem "sentir o tempo" (Olfato)
Isso soa como ficção científica, mas é um fato confirmado pela ciência. O olfato é o sentido principal do cão. A pesquisadora de comportamento canino Alexandra Horowitz explica da seguinte forma: o seu cheiro está constantemente presente na casa. À medida que você se ausenta, a concentração das moléculas do seu odor no ar e nos objetos diminui gradualmente. O cão lê essa "escala de tempo". Quando a concentração do odor cai para um determinado nível aprendido, o cérebro do animal envia um sinal: «Está na hora! O dono vai voltar agora!».
3. Ritmos circadianos e rotina
Os cães são criaturas de hábitos. O seu relógio biológico interno (ritmos circadianos) sincroniza-se com a sua agenda. Se você chega do trabalho às 18:00, o organismo do cão começa a produzir os hormônios correspondentes e a aumentar o nível de excitação do sistema nervoso aproximadamente às 17:45.
Gatos: mestres da observação oculta
Os gatos não recebem os donos à porta com a mesma exaltação que os cães, mas sabem da sua aproximação tão bem quanto eles. Os seus métodos são mais subtis e baseiam-se noutros instintos.
1. Vibrissas e sensações táteis
Os bigodes do gato (vibrissas) não são apenas pelos, mas sensores altamente sensíveis. Eles captam as menores mudanças no ar e vibrações. O gato pode sentir a vibração do elevador, o som dos portões a abrir no pátio ou os seus passos no asfalto antes mesmo de você entrar no prédio.
2. Marcadores visuais e luminosos
Os gatos orientam-se perfeitamente no espaço e notam mudanças na iluminação. Se você chega a casa ao pôr do sol, o gato pode usar o ângulo de incidência dos raios solares no tapete como um sinal: «Em breve virá a pessoa que me vai alimentar».
3. Uma agenda interna rigorosa
Os gatos são pedantes. O seu relógio interno funciona como um relógio suíço. Se você alimenta o gato à mesma hora após o seu regresso, ele estará à sua espera junto à tigela ou à porta exatamente com a antecedência necessária para acordar, lavar-se e caminhar sem pressa até ao local do encontro.
O que diz a ciência? Existem provas de «telepatia»?.
Cientistas japoneses deixaram gatos ouvir as vozes de vários estranhos e, em seguida, a voz do dono. Os animais mudavam visivelmente a reação precisamente com o aparecimento da voz familiar. Conclui-se que o gato é capaz de distinguir o dono de outras pessoas apenas pelo som.
Mas há uma experiência ainda mais interessante.
Os cientistas reproduziram a voz do dono primeiro a partir de um alto-falante e, pouco tempo depois, a partir de outro, localizado na parte oposta da sala.
Os gatos pareciam surpreendidos.
Por outras palavras, na sua mente existia uma representação do tipo:
«O dono está ali. Como é que ele apareceu aqui de repente?»
Os investigadores chamaram a isto representação socioespacial: o gato acompanha mentalmente onde a pessoa que lhe é familiar pode estar.
Portanto, o gato que «por acaso» aparece junto à porta antes de chegarmos pode estar a observar-nos muito mais atentamente do que pensamos.
Mas existe também uma história muito mais estranha
Um dos experimentos mais famosos sobre este tema está relacionado com um cão chamado Jaytee.
A sua dona, Pam Smart, afirmava que o cão começava a esperá-la junto à janela mais ou menos quando ela se punha a caminho de casa — mesmo que regressasse a uma hora invulgar.
Depois disso, surgiu uma discussão bastante longa entre os investigadores sobre a forma exata como o comportamento do cão deveria ser analisado.
Por isso, a famosa história de Jaytee existe na literatura científica, mas não é considerada, até hoje, uma prova de telepatia animal.
A questão de saber se os animais sabem quando o dono regressa tornou-se objeto de sérios debates científicos (e pseudocientíficos) no final dos anos 90 e início dos anos 00.
As controvérsias em torno de Rupert Sheldrake
O biólogo Rupert Sheldrake publicou o livro «Cães que sabem quando os seus donos regressam a casa». Ele realizou experiências, filmando cães enquanto esperavam junto à janela ou à porta antes de o dono sair do trabalho. Sheldrake concluiu que existe uma «ressonância mórfica» (uma forma de telepatia) entre o dono e o cão.
O veredito da comunidade científica: Os colegas criticaram duramente o trabalho de Sheldrake. Em experiências repetidas e mais rigorosas (utilizando métodos duplos-cegos e excluindo o fator do acaso), as capacidades «telepáticas» dos cães não se confirmaram. Os cientistas chegaram à conclusão de que, nas experiências iniciais, o «fator de confirmação» desempenhou um papel (os donos notavam e memorizavam apenas os momentos em que o cão acertava, e ignoravam os casos em que ele estava a dormir ou se enganava).
Consenso científico moderno
Hoje, os etólogos (cientistas que estudam o comportamento animal) concordam: não existe aqui qualquer telepatia ou mística. Contudo, existem provas irrefutáveis das capacidades incríveis dos animais:
- Estudos sobre a audição: Experiências provaram que os cães conseguem distinguir os sons dos automóveis dos seus donos dos de outros carros com uma precisão de 90% e superior.
- Estudos sobre o olfato: Está provado que os cães são capazes de detetar gradientes de odor (a alteração da intensidade do cheiro ao longo do tempo), o que lhes permite orientarem-se no tempo.
- Etologia cognitiva: As pesquisas mostram que os animais possuem uma capacidade notável de reconhecimento de padrões (regularidades). Eles ligam dezenas de microssinais (a posição do sol, o som de um motor específico, a alteração da pressão atmosférica, o cheiro) numa cadeia única: «O dono está quase a chegar».
Resumo: A magia é cancelada, mas o amor permanece
Os cães e os gatos não leem os nossos pensamentos nem sentem a nossa angústia à distância através de milhares de quilómetros. Mas eles fazem algo, talvez, mais surpreendente.
Eles vivem num mundo onde os sons, os cheiros e as vibrações são tingidos de milhares de tons inacessíveis ao ser humano. Eles estudaram a sua rotina, o som dos seus passos e o cheiro da sua pele até ao nível molecular. Quando o seu animal de estimação o espera à porta 5 minutos antes de chegar, não é magia. É a prova de quão profunda, atenta e lealmente o seu animal o estudou a si e ao seu mundo.
E, convenhamos, a consciência de que alguém o ama tanto que aprendeu o som do seu motor de cor aquece a alma tanto quanto a crença em milagres.
Podemos viver ao lado de um cão durante dez anos e continuar a surpreender-nos com os seus hábitos.
E ele, durante esse tempo, já sabe a que horas acordamos, como soam os nossos passos, que cheiro temos depois de vir da rua, quando costumamos regressar a casa — e, provavelmente, repara em dezenas de coisas cuja existência nem suspeitamos.
Portanto, da próxima vez que abrir a porta e vir o cão ou o gato que claramente o esperavam com antecedência, não se apresse a dizer:
«Mas como é que soubeste?»
Talvez, para eles, outra coisa seja mais estranha:
como é que você ainda não percebe o quão bem eles o conhecem.
Mas também não se esqueça! Simplesmente ainda ninguém conseguiu provar a telepatia.

