Música da era das raízes: por que a identidade cultural volta a vencer

Autor: Inna Horoshkina One

BTS O COMEBACK AO VIVO l ARIRANG Sketch

Por muito tempo, o sucesso internacional esteve associado à universalidade. Para que uma canção cruzasse fronteiras, parecia necessário que ela fosse o mais neutra possível — compreensível para todos, desprovida de vínculos culturais acentuados e adaptada a uma linguagem pop global.

Hoje, porém, o cenário é cada vez mais diferente. Os vencedores não são aqueles que apagam as próprias raízes.

Mas sim aqueles que as fazem ecoar. E este já não é um caso isolado.

Com ARIRANG, o BTS não recorre a uma universalidade impessoal, mas à profunda memória cultural da Coreia. O próprio título remete a uma das canções folclóricas mais emblemáticas do país — um símbolo de jornada, despedida, lembrança e identidade coletiva. Ao mesmo tempo, o projeto alcança uma repercussão internacional avassaladora.

DARA vence o Eurovision 2026 com Bangaranga — uma canção inspirada na tradição ritualística búlgara dos kukeri, na qual o barulho, o movimento e as máscaras tornam-se símbolos de purificação e renovação. Não se trata de um "pop internacional genérico". É uma energia cultural muito específica. E é precisamente ela que se mostra convincente para toda a Europa.

O Afrobeats continua sua expansão global não por abrir mão de sua identidade rítmica, mas por inseri-la no fluxo musical mundial. Burna Boy, Tems e outros artistas demonstram que a linguagem musical local não é mais uma barreira.

A música latino-americana também já superou, há muito tempo, as fronteiras regionais. Bad Bunny, Karol G e Shakira não se moldam a padrões externos — eles alteram o próprio centro de gravidade musical do mundo.

Até mesmo o K-pop evolui não como uma "música local que busca ser internacional", mas como um sistema cultural completo, com estética visual, linguagem e códigos próprios que o mundo está aprendendo a decifrar.

Isso não parece ser uma tendência passageira. Mas sim uma mudança de paradigma cultural.

Talvez o público global esteja cansado de uma universalidade estéril.

Em um mundo onde os algoritmos sugerem cada vez mais do mesmo, a autenticidade começa a ressoar com mais força.

E, então, o local deixa de ser uma limitação. Torna-se uma fonte de poder.

A música volta a funcionar não como um instrumento de padronização, mas como um espaço de tradução entre culturas. Sem tornar todos iguais. Mas permitindo que cada um se expresse a partir de sua própria essência.

O que isso agrega à sonoridade do planeta?

Talvez a era do retorno às raízes não seja um movimento em direção à separação, mas o contrário.

Quanto mais honestamente cada voz ecoa sua memória cultural, mais nítida se torna, não a diferença, mas a fonte comum.

Pois, para além da língua, do gênero, da tradição e da geografia, a música nos lembra de algo simples:

uma árvore pode ter muitos galhos, mas a raiz é uma só.

E talvez seja por isso que, hoje, o mundo não responda à uniformidade, mas sim à autenticidade

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