«Toca, sanfona»: como uma rede neural liderou as paradas russas pela primeira vez

Autor: Tatyana Hurynovich

No início de 2026, aconteceu o que a indústria musical esperava e, ao mesmo tempo, temia: uma faixa, criada inteiramente por inteligência artificial, liderou simultaneamente as paradas da VK Music e da Yandex.Music. A canção «Toca, sanfona», com versos de Sergei Yesenin, tornou-se o primeiro caso na Rússia em que uma rede neural superou artistas reais nas principais plataformas de streaming do país.

O misterioso projeto SDP

O autor da faixa não era um produtor famoso nem uma grande gravadora, mas um projeto com a sigla lacônica SDP — «Verso digno de canção» (Stikh, dostoyny pesni). Por trás desse nome está o escritor Kirill Zbrodov, que lançou o experimento de rede neural no final de 2025. Sua ideia é simples e, ao mesmo tempo, radical: pegar obras de clássicos que já entraram em domínio público e, com a ajuda de redes neurais, transformá-las em composições musicais completas.

Zbrodov estabeleceu para si uma meta ambiciosa: alcançar um milhão de reproduções até o final de 2026. A realidade superou as expectativas: já em dezembro de 2025, o contador ultrapassou 10 milhões de reproduções, e cerca de 10 mil publicações usando as faixas do projeto apareceram nas redes sociais.

Versos autênticos de Yesenin

Muitos ouvintes se perguntam primeiro: a inteligência artificial distorceu o texto clássico? No caso de «Toca, sanfona», a resposta é inequívoca: não. É um poema autêntico de Sergei Yesenin, escrito por ele em 1922 e incluído no famoso ciclo «Versos de um escandaloso». O poeta criou-o após uma das noites turbulentas em uma taverna de Moscou, em um período de ruptura interna e crise existencial.

Zbrodov não mudou uma palavra — a rede neural recebeu o texto original e o transformou em uma obra musical. A voz que ouvimos na gravação também é gerada por inteligência artificial: rouca, brutal, cansada — ela se encaixa perfeitamente na batida lenta, que parece criar um suspense. Anteriormente, o grupo «25/17» havia experimentado com este poema, mas foi a versão de rede neural que se tornou popular. A música/arranjo também foi criada por uma rede neural.

Tecnologias nos bastidores

A principal ferramenta para a criação da música foi a rede neural Suno AI — uma das plataformas mais avançadas para a geração de canções. Ela permite carregar um texto e obter como resultado uma composição completa com vocais, arranjo e produção. Paralelamente, surgiu uma forte tendência visual em torno da música: usuários de redes sociais começaram a criar vídeos onde fotografias estáticas «ganhavam vida» e dançavam ao som da sanfona de Yesenin. Para isso, foi utilizada outra rede neural — Kling 2.6 Motion Control, que transfere movimentos de uma referência de vídeo para uma fotografia.

Foi a combinação de uma emoção forte com a facilidade de criação de conteúdo que tornou a tendência viral. Para gravar um vídeo, não é preciso saber dançar, filmar ou editar — basta um retrato e uma leve animação.

Como a música conquistou as paradas

O sucesso de «Toca, sanfona» explica-se por vários fatores. Em primeiro lugar, a composição integrou-se poderosamente aos algoritmos de recomendação das plataformas de streaming — ela começou a ser sugerida literalmente a todos os usuários para «ouvir». Em segundo lugar, o interesse do público pelo novo e misterioso desempenhou um papel: as pessoas estavam curiosas para saber que faixa era aquela, que soava tão humana, mas foi criada por uma máquina.

Em terceiro lugar, a originalidade do formato é importante. Em uma era em que a nova música muitas vezes parece um chiclete mastigado em uma embalagem brilhante, a interpretação da clássica por uma rede neural tornou-se um sopro de ar fresco. Há a sensação de que a IA está aprendendo com o ser humano a falsificar emoções — e está conseguindo fazer isso de forma convincente. As pessoas acreditam no que ouvem.

Por que isso é importante

«Toca, sanfona» não é apenas um sucesso viral. É um sinal de que as redes neurais deixaram de ser apenas uma ferramenta de auxílio e começaram a conquistar nichos onde antes eram necessários pensamento, alma, intelecto e coração. A poesia clássica é gratuita, as redes neurais são baratas, rápidas e aprendíveis. Para as pessoas, parece que já não é tão importante quem exatamente está cantando — o que importa é a atmosfera, a voz, a sinceridade.

Kirill Zbrodov já está trabalhando em novas faixas: suas composições com versos de outros clássicos entraram nas paradas. Parece que estamos testemunhando apenas o início de uma grande transformação na indústria musical, onde a fronteira entre o homem e a máquina se torna cada vez mais tênue.

 

 

 

 

 

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