Há filmes que se aproximam de nós sem que percebamos, como uma onda fria do oceano, para depois nos cobrir da cabeça aos pés com uma cachoeira de emoções. «A Baleia: nas trevas das profundezas» do realizador Brian Duffield — é exatamente um filme assim. É uma obra surpreendentemente bela, com uma ideia genial dos argumentistas que à primeira vista parece insana, mas no ecrã se transforma numa atração hipnótica e arrebatadora no limite das possibilidades humanas.
Imagine: sol, a brisa salgada da costa central da Califórnia e a frágil esperança de pôr um ponto final numa história dolorosa. Jay Gardiner mergulha à procura dos restos do pai, mas o oceano prepara-lhe uma provação capaz de quebrar qualquer um. Uma escuridão súbita, uma pressão monstruosa, e eis que é engolido por um cachalote gigantesco. Encurralado no ventre do leviatã. Oxigénio — para uma hora. À volta — uma escuridão absoluta e estridente, um medo pegajoso e condições em que a mente grita por capitulação.
Mas é precisamente aqui, nesta armadilha primitiva, que se desenrola uma verdadeira sinfonia de sobrevivência. Duffield intensifica magistralmente a claustrofobia, transformando cada plano numa sensação física de falta de ar. Não se limita a olhar para o ecrã — sente as paredes a apertar, o pulso a bater nas têmporas ao ritmo do temporizador que faz tiquetaque, cada inspiração a tornar-se um luxo pelo qual é preciso lutar com unhas e dentes. É um nocaute cinematográfico, após o qual o espectador se levanta de um salto, incapaz de desviar o olhar do que se passa.
Neste duelo desesperado com a natureza, Jay recorda as lições duras e sofridas do pai. E é aqui que o filme encontra o seu coração mais profundo e comovente. Josh Brolin (nas memórias e como orientação espiritual) e todo o elenco criam uma ligação emocional tão forte que atravessa a espessura da água e das trevas com mais força do que qualquer holofote. Não é apenas uma luta pela vida — é o diálogo final e mais importante de um filho com o pai, em que está em jogo a própria alma.
A inventividade visual da obra merece uma ovação à parte. O trabalho de fotografia transforma o interior da baleia numa paisagem surrealista, quase cósmica, onde a luz e a sombra travam o seu próprio e tenso jogo. Os argumentistas realizaram um verdadeiro feito: partiram de uma premissa deliberadamente absurda e forjaram a partir dela um nervo de thriller impecável e bem esticado, em que cada segundo está saturado de sentido e adrenalina.
«A Baleia: nas trevas das profundezas» é uma atração fora do comum, ousada e incrivelmente poderosa. É um filme para quem está disposto a aceitar as suas regras e mergulhar de cabeça neste abismo. Deixa um sabor duradouro e vibrante, levando-nos a refletir sobre a fragilidade da vida e a força indomável da vontade humana.
Se procura um filme que o tire da zona de conforto e faça o seu coração bater como um tambor numa final decisiva, — esta é a sua escolha incontestável. Brilhante, corajoso e de arrepiar até aos ossos.
Avaliação Gaya — 8.2/10
Surpreendentemente belo: como os argumentistas de «A Baleia» transformaram um absurdo arriscado numa obra-prima.

