Fantasmas cósmicos: o primeiro «eco» de neutrinos de estrelas há muito extintas

Autor: Uliana S

A ilustração mostra uma explosão de supernova bombardeando a Terra com neutrinos (Imagem fornecida pela colaboração Super-Kamiokande).

Nas profundezas das montanhas japonesas, em um imenso reservatório preenchido com 50 mil toneladas de água puríssima, cientistas captaram um sussurro quase imperceptível do Universo. O Super-Kamiokande — um dos "telescópios de neutrinos" mais sensíveis do mundo — registrou os primeiros indícios do chamado fundo difuso de neutrinos de supernovas (DSNB). Estas são partículas geradas no inferno termonuclear de incontáveis explosões estelares ocorridas ao longo de toda a história do cosmos.

Nebulosa do Caranguejo, fotografada pelo Hubble Space Telescope e por telescópios terrestres. A nebulosa é o remanescente de uma supernova que se formou como resultado do colapso do núcleo.

Os neutrinos não são chamados de "fantasmas" ou "assombrações cósmicas" por acaso. Essas partículas elementares quase não interagem com a matéria: trilhões delas atravessam seu corpo a cada segundo sem deixar qualquer rastro. No entanto, são elas que carregam a maior parte da energia liberada na explosão de uma supernova. Quando uma estrela massiva esgota seu combustível, seu núcleo entra em colapso, desencadeando uma reação em cadeia que dá origem a cerca de 10^58 neutrinos — um número que desafia a imaginação. A luz que percebemos como um brilho intenso representa apenas cerca de 1% da energia da explosão. O restante se dispersa na forma dessas partículas esquivas.

No universo, explosões de supernovas ocorrem várias vezes por segundo. Desde o nascimento do universo, os neutrinos emitidos por essas supernovas têm se espalhado pelo espaço e se acumulado.

Até agora, os astrônomos haviam observado neutrinos de apenas uma única supernova: a SN 1987A, na Grande Nuvem de Magalhães, em 1987. Trata-se de um evento ocorrido "no quintal de casa" — a apenas 168 mil anos-luz de distância. Já os neutrinos de fundo representam a voz coletiva de todas as supernovas que explodiram ao longo de bilhões de anos em diversos cantos do Universo. Eles se espalharam por todas as direções, perderam força e hoje "sussurram" de forma sutil, permeando todo o espaço. Teoricamente, algumas dessas partículas deveriam atravessar cada centímetro quadrado da Terra a cada segundo.

A colaboração internacional Super-Kamiokande analisou dados de 5.002 dias de observações — abrangendo o período de 2008 a 2020 (em água pura) e após 2020, quando o gadolínio foi adicionado para ampliar a sensibilidade. Os cientistas filtraram meticulosamente o ruído de neutrinos atmosféricos, raios cósmicos e outras interferências. No intervalo de energia entre 13 e 81 MeV, foi possível identificar um sinal estatisticamente relevante que corrobora as previsões dos modelos de DSNB. O sinal corresponde a aproximadamente 3,6 neutrinos por centímetro quadrado por segundo — um valor dentro da faixa esperada. A significância atinge 2,6σ: ainda não se trata de uma descoberta plena (que normalmente exige 5σ), mas é o primeiro "eco" convincente já registrado.

Por que isso é importante? As supernovas são as principais "forjas" de elementos pesados no Universo. O ferro em seu sangue, o cálcio em seus ossos e o oxigênio que respiramos foram todos expelidos por explosões de estrelas ancestrais há muito tempo. Ao estudar os neutrinos de fundo, ganhamos a chance de analisar as estatísticas dessas explosões ao longo de toda a história cósmica: quantas ocorreram, com qual energia e como influenciaram a evolução química das galáxias. Trata-se de uma janela para os processos que moldaram exatamente o mundo em que existimos.

Embora o sinal ainda seja tênue, o Super-Kamiokande continua a acumular dados, e novos detectores se unirão a ele no futuro. O sussurro discreto dos fantasmas cósmicos está, aos poucos, se transformando em uma narrativa clara sobre a vida dramática das estrelas. E cada novo fóton ou lampejo no enorme reservatório subterrâneo nos deixa mais perto de compreender como o nosso Universo nasceu e como ele sobrevive.

7 Visualizações

Leia mais artigos sobre este tema:

Encontrou um erro ou imprecisão?Vamos considerar seus comentários assim que possível.