Em Washington, voltou-se a falar em "clareza" para o mercado de criptoativos: o líder da maioria no Senado, John Thune, está a promover o projeto de lei Crypto Clarity Act, que deverá finalmente definir quem e como supervisionará os ativos digitais. À primeira vista, parece um passo muito aguardado em direção à ordem. Na prática, porém, a questão é saber quem terá o direito de decidir o que é considerado dinheiro e o que é um valor mobiliário, e como isso afetará as finanças das pessoas comuns.
Nos últimos anos, as criptomoedas deixaram de ser uma diversão marginal para se tornarem uma parte significativa das finanças pessoais de milhões de americanos e de outros. Os investidores procuravam nelas uma proteção contra a inflação e uma alternativa aos bancos tradicionais. Agora, porém, os reguladores prometem limites claros: alguns ativos ficarão sob a alçada da SEC, outros sob a CFTC. A diferença não está apenas na papelada. Disso dependerá se as plataformas poderão oferecer determinados produtos, se os stablecoins estarão disponíveis e com que facilidade os grandes intervenientes conseguirão atrair capital.
Nos bastidores, existe um habitual conflito de interesses. O Estado quer ver todos os fluxos para combater a lavagem de dinheiro e a evasão fiscal. A indústria, por sua vez, está cansada da incerteza constante, que dificulta o planeamento de negócios e a atração de capital institucional. O investidor comum encontra-se entre a espada e a parede: por um lado, menos riscos de fraude; por outro, possíveis restrições sobre como e para onde poderá transferir as suas poupanças.
Recordemos como, na altura, foram introduzidas regras para os bancos após a crise de 2008. Formalmente, era para proteger os depositantes. Na prática, resultou no aumento das comissões e na complicação do acesso ao capital para os pequenos operadores. Com as criptomoedas, a história pode repetir-se: as grandes plataformas adaptar-se-ão, as pequenas desaparecerão ou serão expulsas, e o indivíduo comum terá mais requisitos de prestação de contas e menos anonimato. O dinheiro que antes circulava livremente começará a passar por novos filtros.
Isso é particularmente visível nos eventos recentes. Enquanto o Senado discute as regras, hackers já roubaram quase oito milhões de dólares do serviço de pagamentos Coinsbuy, e "baleias" fazem apostas multimilionárias em moedas privadas como a Monero. A regulação pode reforçar a segurança da infraestrutura, mas não eliminará o essencial: onde há muito dinheiro, haverá sempre quem tente contorná-lo. E quanto mais rígidas as regras, maior a tentação de operar na sombra ou em jurisdições com uma abordagem mais flexível.
Para o indivíduo comum que mantém parte das suas poupanças em ativos digitais, isso significa a necessidade de rever a sua estratégia. Não se deve confiar apenas nas promessas de "clareza" — é importante compreender quais os ativos que serão abrangidos pelas novas regras e como isso se refletirá na liquidez e nos impostos. Como diz o velho ditado, "é melhor saber onde se está sentado do que esperar que a cadeira não se parta".
Em suma, o Clarity Act não é apenas um documento burocrático, mas um sinal: a era da total liberdade das criptomoedas está a chegar ao fim, e agora cada investidor terá de decidir por si próprio se está disposto a jogar pelas novas regras ou se procura outros caminhos para o seu dinheiro.



